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Empresário com contrato na Petrobras nomeou Lulinha para cargo de conselheiro; SAIBA MAIS

O empresário Léo Slezynger, ligado à petroquímica Unigel, convidou Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha e filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para integrar o conselho de uma organização não governamental voltada à área ambiental. A iniciativa ocorreu após uma articulação da lobista Roberta Luchsinger, que se apresentava como sócia de Lulinha, com o objetivo de viabilizar a captação de recursos destinados ao Fundo Amazônia.

As conversas, reveladas em reportagem do portal Metrópoles publicada nesta terça-feira (20), envolvem a perspectiva de recursos anunciados pelo então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em 2023, e levantam questionamentos sobre a relação entre interesses empresariais, influência política e iniciativas de financiamento ambiental.

Segundo as mensagens atribuídas aos envolvidos, Luchsinger sugeriu que Slezynger estruturasse uma entidade para receber doações e incluísse Lulinha em seu conselho. A proposta foi apresentada em um contexto no qual os Estados Unidos haviam anunciado a intenção de mobilizar US$ 500 milhões para o Fundo Amazônia ao longo de cinco anos.

O episódio ganha relevância adicional porque a Unigel manteve negociações com a Petrobras envolvendo a operação de fábricas de fertilizantes. O contrato de industrialização por encomenda celebrado entre as empresas foi objeto de análise do Tribunal de Contas da União (TCU), que identificou problemas na avaliação econômica do negócio. A Petrobras informou, em junho de 2024, que o contrato não havia cumprido as condições necessárias para entrar em vigor e teve sua vigência encerrada antes de produzir efeitos. <Cite refs={[“turn120251search3″,”turn120251search0″,”turn120251search5”]}/>

Mensagens mostram articulação para criar fundo e incluir Lulinha

Troca de mensagens de Roberta Luchsinger

De acordo com a reportagem, em 20 de abril de 2023, Roberta Luchsinger encaminhou a Léo Slezynger uma notícia sobre o anúncio de Joe Biden relacionado ao Fundo Amazônia. Na sequência, ela teria incentivado o empresário a estruturar rapidamente um fundo para receber recursos.

Nas mensagens divulgadas, Luchsinger escreveu que o Brasil poderia receber muito dinheiro e sugeriu que a iniciativa despertaria o interesse de Lula. A conversa indica que a criação da entidade era discutida como uma oportunidade para captar recursos destinados a projetos ambientais.

Slezynger teria respondido que já possuía uma estrutura montada e que ela poderia começar a receber recursos. Em seguida, a lobista sugeriu que Lulinha fosse convidado para integrar o conselho e recebesse uma remuneração pelo cargo.

Uma das mensagens atribuídas a Luchsinger chama atenção pelo teor da justificativa apresentada. Segundo a reportagem, ela teria afirmado que a presença do filho do presidente no conselho poderia favorecer a iniciativa, utilizando a expressão “toma lá, da cá” para descrever a lógica da articulação.

A frase levanta questionamentos sobre a finalidade da nomeação e sobre a expectativa de que a proximidade familiar com o presidente pudesse ajudar na obtenção de recursos. Entretanto, o conteúdo das mensagens, isoladamente, não comprova que Lula tenha interferido na destinação de verbas ou que tenha ocorrido uma decisão oficial para beneficiar a organização.

Na conversa relatada, Slezynger também teria mencionado a possibilidade de utilizar um fundo e uma associação para receber doações. Entre os objetivos citados estavam a criação de um fórum de sustentabilidade e o desenvolvimento de novas reservas.

O material divulgado sugere que a proposta não se limitava a uma discussão abstrata sobre preservação ambiental. Havia conversas sobre a estrutura da organização, a composição de seus conselhos e a possibilidade de remuneração de integrantes.

A distinção entre uma iniciativa ambiental legítima e uma eventual tentativa de obter vantagens por meio de influência política depende, contudo, de elementos adicionais, como documentos da entidade, registros financeiros, contratos e evidências sobre a participação efetiva de cada pessoa envolvida.

Troca de mensagens de Roberta Luchsinger

Lulinha, Marina Silva e outros nomes foram citados para integrar a entidade

As conversas também mencionavam uma composição mais ampla para a organização. Conforme as informações divulgadas, Lulinha, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e Roberta Luchsinger seriam nomes previstos para o chamado conselho estratégico.

Já Léo Slezynger e o empresário Roberto Klabin apareceriam associados ao conselho empresarial. A deputada federal e ex-ministra Sônia Guajajara também teria sido citada para integrar o conselho técnico.

A formação proposta reuniria pessoas com trajetórias distintas nos campos empresarial, político e ambiental. Essa composição, caso formalizada, poderia contribuir para a interlocução da entidade com diferentes setores. Ao mesmo tempo, a presença de pessoas com acesso a autoridades públicas exige atenção às regras de transparência, aos critérios de governança e à eventual existência de conflitos de interesse.

Segundo a reportagem, Lulinha demonstrou cautela ao ser consultado sobre a possibilidade de ocupar o cargo. Em uma das mensagens, ele teria observado que seria necessário verificar se ministros poderiam participar de uma função privada dessa natureza.

A resposta indica que havia dúvidas sobre a compatibilidade da participação de integrantes do governo com a estrutura proposta. A questão é relevante porque a presença de agentes públicos em conselhos privados pode exigir análise jurídica e administrativa, conforme a natureza do cargo, as atribuições envolvidas e as regras aplicáveis.

Também é importante diferenciar a menção de uma pessoa em conversas privadas de sua efetiva participação em uma organização. A indicação para um conselho, por si só, não demonstra que todos os nomes citados aceitaram o convite, assumiram funções ou participaram de atividades de captação de recursos.

No caso de Lulinha, a reportagem informa que Slezynger concluiu o convite e o apontou como conselheiro. A extensão das atividades realizadas, a eventual remuneração e os resultados concretos da iniciativa precisam ser avaliados à luz dos documentos e das informações disponíveis sobre a entidade.

Relação com a Petrobras coloca contrato da Unigel sob escrutínio

A articulação ambiental ganhou maior repercussão por envolver um empresário ligado à Unigel, grupo que manteve negociações com a Petrobras para a operação de unidades de produção de fertilizantes.

Em dezembro de 2023, a estatal celebrou com empresas do grupo um contrato de industrialização por encomenda, conhecido como tolling. O acordo previa o pagamento global de R$ 759,2 milhões por serviços relacionados à produção, armazenagem e comercialização de fertilizantes nas fábricas de Camaçari, na Bahia, e Laranjeiras, em Sergipe.

O negócio foi examinado pelo Tribunal de Contas da União. Em decisão divulgada em julho de 2024, o TCU apontou falhas na análise de riscos e na avaliação econômica que embasaram a contratação, considerando que a metodologia utilizada favoreceu artificialmente a alternativa escolhida. O Tribunal também identificou riscos relevantes associados à situação financeira da Unigel e ao cenário do mercado de fertilizantes. <Cite refs={[“turn120251search0″,”turn120251search2”]}/>

É necessário, porém, fazer uma distinção importante: segundo comunicado da Petrobras, o contrato de tolling não teve as condições de eficácia atendidas dentro do prazo previsto e encerrou sua vigência antes de produzir efeitos. Portanto, não é correto afirmar simplesmente que o TCU anulou um contrato que já havia sido executado. A atuação do Tribunal envolveu a fiscalização do negócio e a avaliação de sua regularidade e viabilidade econômica. <Cite refs={[“turn120251search0″,”turn120251search5”]}/>

A coincidência entre as conversas sobre a ONG, a tentativa de captar recursos ambientais e as relações empresariais com a Petrobras torna o caso relevante para o debate sobre transparência. Ainda assim, a existência dessas relações não comprova automaticamente que a indicação de Lulinha tenha determinado decisões da estatal ou que recursos públicos tenham sido direcionados à entidade por influência do presidente.

Para estabelecer eventual irregularidade, seria necessário demonstrar a conexão entre as conversas, as decisões administrativas e os benefícios efetivamente obtidos. Também seria importante esclarecer se a ONG chegou a receber recursos, quais foram seus financiadores, quais atividades foram realizadas e se houve remuneração dos conselheiros.

O episódio coloca em discussão a necessidade de separar relações privadas legítimas de situações em que a proximidade com autoridades possa ser utilizada para obter vantagens. A transparência sobre nomeações, pagamentos, doações e decisões públicas é essencial para que a sociedade possa avaliar a conduta dos envolvidos.

Sobre Lulinha, Unigel e o Fundo Amazônia

1. O que é uma organização não governamental ambiental?

É uma entidade privada sem fins lucrativos que pode atuar em áreas como conservação da natureza, recuperação de ecossistemas, educação ambiental e desenvolvimento sustentável. Sua estrutura e suas fontes de financiamento dependem de seu estatuto e das regras aplicáveis.

2. Quem administra o Fundo Amazônia?

O Fundo Amazônia é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pela gestão dos recursos e pela avaliação e contratação de projetos conforme suas regras. Uma organização privada não recebe automaticamente recursos apenas por criar um fundo ou manifestar interesse em captar doações.

3. O anúncio dos Estados Unidos previa o repasse imediato de US$ 500 milhões?

Não. O anúncio de Joe Biden, em 2023, tratava da intenção de mobilizar US$ 500 milhões ao longo de cinco anos. Segundo as informações fornecidas na reportagem, o Congresso americano aprovou US$ 100 milhões, montante que foi efetivamente repassado.

4. Um conselheiro de ONG pode receber salário?

A remuneração depende da natureza da função, das regras legais aplicáveis e das disposições estatutárias da entidade. A existência de pagamento não representa, por si só, irregularidade, mas deve ser transparente e compatível com as obrigações legais e de governança.

5. Como é possível verificar se uma ONG recebeu recursos do Fundo Amazônia?

É possível consultar as informações públicas disponibilizadas pelo BNDES sobre projetos apoiados, beneficiários, contratos e desembolsos. Também podem ser relevantes os registros institucionais da organização, suas demonstrações financeiras e documentos que comprovem a origem e a aplicação dos recursos.