O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) que teria entregado R$ 20 milhões em dinheiro vivo ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, durante as eleições municipais de 2024. Segundo o relato apresentado em uma tentativa de acordo de colaboração premiada, os recursos teriam sido utilizados como caixa dois para financiar campanhas de candidatos a prefeito em Minas Gerais apoiados pelo PSD.
A nova alegação se soma a outro suposto repasse de R$ 20 milhões que Vorcaro afirma ter realizado em 2022, quando Silveira disputou uma vaga no Senado por Minas Gerais. Caso os dois relatos fossem comprovados, os valores mencionados chegariam a R$ 40 milhões. Até o momento, porém, as declarações atribuídas ao ex-banqueiro não representam comprovação judicial dos pagamentos, e o ministro nega ter recebido recursos ilegais.
As informações foram divulgadas pelo portal Metrópoles em 28 de outubro de 2026. O caso chama atenção pelo valor envolvido, pela suposta utilização de dinheiro em espécie e pela menção a campanhas eleitorais em Minas Gerais. Também ganha relevância por envolver um integrante do governo federal e um empresário que está preso preventivamente no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master.
Segundo Vorcaro, os recursos ligados às eleições de 2024 teriam sido entregues de maneira fracionada nas semanas anteriores à votação. O ex-banqueiro também apontou o pastor Fabiano Zettel, seu cunhado, como responsável por viabilizar a disponibilização do dinheiro.
Vorcaro afirma ter repassado R$ 20 milhões em dinheiro vivo
De acordo com o relato apresentado aos investigadores, os supostos repasses de 2024 teriam como objetivo apoiar campanhas municipais de candidatos ligados ao PSD em Minas Gerais. Alexandre Silveira é apontado por Vorcaro como um dos principais articuladores políticos do partido no estado.
O ex-banqueiro afirmou que o dinheiro teria sido disponibilizado em espécie e dividido em diferentes entregas, realizadas nas semanas que antecederam as eleições municipais. Segundo a versão apresentada na tentativa de colaboração premiada, a estratégia buscaria manter uma relação próxima com Silveira e com o grupo político associado ao ministro.
Como parte do material apresentado para sustentar suas declarações, Vorcaro teria fornecido mensagens trocadas com Fabiano Zettel. Nos diálogos mencionados pela reportagem, os dois conversariam sobre a retirada de dinheiro em espécie, e Zettel questionaria se os valores deveriam ser levados para Belo Horizonte ou encaminhados a outro destino.
A existência dessas mensagens, conforme descrita na reportagem, pode servir como elemento a ser analisado pelos investigadores. Entretanto, o conteúdo de conversas sobre saques, isoladamente, não comprova que os valores tenham sido entregues a Alexandre Silveira nem que tenham sido utilizados para financiar campanhas de maneira irregular.
Segundo Vorcaro, as contribuições relacionadas às eleições de 2022 e 2024 não teriam sido declaradas à Justiça Eleitoral. A alegação é especialmente relevante porque o financiamento de campanhas está sujeito a regras específicas de transparência, identificação de recursos e prestação de contas.
O relato também não aponta, segundo as informações divulgadas, que Vorcaro tenha recebido contrapartidas diretas do ministro em troca dos supostos pagamentos. O ex-banqueiro teria afirmado que pretendia preservar uma relação próxima com Silveira e com o meio político mineiro.
É importante ressaltar que as declarações fazem parte de uma tentativa de negociação de colaboração premiada. Para que um acordo desse tipo produza efeitos, as informações precisam passar por avaliação das autoridades competentes, e os fatos relatados devem ser examinados à luz de outros elementos de prova.
Supostos repasses de 2022 e 2024 somariam R$ 40 milhões
A nova declaração atribuída a Vorcaro recupera um relato anterior sobre a campanha eleitoral de 2022, quando Alexandre Silveira concorreu ao Senado por Minas Gerais. Na ocasião, o ex-banqueiro teria afirmado que destinou R$ 20 milhões à campanha do então candidato, também sob a alegação de caixa dois.
A primeira parte do relato foi publicada pelo jornal O Globo em junho de 2026 e, posteriormente, voltou a ser mencionada na cobertura do caso. Com a inclusão da eleição municipal de 2024, Vorcaro teria descrito dois episódios distintos, que somariam R$ 40 milhões.
A soma, contudo, corresponde aos valores alegados pelo ex-banqueiro, e não a um montante comprovadamente recebido pelo ministro. A distinção é fundamental para compreender o estágio das informações divulgadas e evitar que uma acusação seja apresentada como conclusão definitiva.
Em nota relacionada à campanha de 2022, Alexandre Silveira afirmou que todas as doações recebidas naquele período foram realizadas em conformidade com a legislação eleitoral, declaradas regularmente e aprovadas pela Justiça. Ao ser questionado sobre as novas declarações atribuídas a Vorcaro, o ministro contestou a divulgação do conteúdo e criticou a reportagem.
“Publicar um suposto conteúdo daquilo que sequer existe — PGR e PF repudiaram propostas de delação — não é jornalismo; é manipulação deliberada”, declarou Silveira, conforme a reportagem.
A manifestação reforça que há contestação direta às alegações. A avaliação sobre a existência de irregularidades dependerá de apuração, análise documental e eventual manifestação das autoridades responsáveis pelo caso.
Vorcaro, por sua vez, teria apresentado três propostas de colaboração premiada que foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Segundo as informações divulgadas, os órgãos apontaram omissões em relação a fatos que já haviam sido identificados durante as investigações. Esse histórico pode influenciar a avaliação de novas propostas, já que a colaboração precisa apresentar informações relevantes e elementos capazes de contribuir para o esclarecimento dos fatos.
Reunião com Lula, Fabiano Zettel e investigação do Banco Master
O caso também voltou a chamar atenção para uma reunião realizada em dezembro de 2024 entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Daniel Vorcaro, no gabinete presidencial, no Palácio do Planalto. Segundo o relato do presidente, o encontro teve como tema a situação do Banco Master.
A reunião contou com a presença de Alexandre Silveira, do ministro da Casa Civil, Rui Costa, de Gabriel Galípolo, então recém-indicado para presidir o Banco Central, e do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, apontado como articulador do encontro. A reunião não constava da agenda oficial da Presidência, segundo as informações publicadas.
O Metrópoles questionou Silveira sobre sua participação em uma reunião relacionada ao Banco Master, uma vez que o assunto não fazia parte das atribuições centrais do Ministério de Minas e Energia. O ministro não respondeu à pergunta, assim como preferiu não se manifestar sobre quando teria conhecido Vorcaro.
A realização do encontro, por si só, não comprova relação entre a reunião e os supostos pagamentos relatados pelo ex-banqueiro. Da mesma forma, as informações divulgadas não estabelecem que tenha havido uma contrapartida entre Silveira e Vorcaro. Esses pontos precisariam ser esclarecidos por evidências adicionais.
Fabiano Zettel também aparece no relato. Cunhado de Vorcaro, ele teria sido responsável por operacionalizar a disponibilização dos recursos em espécie, segundo a versão apresentada pelo ex-banqueiro. Zettel foi preso pela primeira vez pela Polícia Federal em janeiro de 2026, quando se preparava para deixar o Brasil com destino aos Emirados Árabes Unidos.
Após ser solto, ele voltou a ser preso em março de 2026, sob suspeita de realizar pagamentos e intermediar ações de um grupo chamado “A Turma”. De acordo com a Polícia Federal, o grupo seria utilizado para intimidar jornalistas e adversários do Banco Master. Essas suspeitas também devem ser tratadas conforme o estágio das investigações e as manifestações das defesas envolvidas.
Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março de 2026, quando foi alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Ele permanece custodiado na Papudinha, no Complexo da Papuda, em Brasília.
O caso reúne, portanto, alegações sobre financiamento eleitoral, mensagens relacionadas à movimentação de dinheiro em espécie, uma tentativa de colaboração premiada e questionamentos sobre relações políticas e empresariais. Os próximos desdobramentos dependerão da análise das informações entregues, da eventual apresentação de provas adicionais e das decisões das autoridades responsáveis.
Por enquanto, o ponto central é que Vorcaro atribui a Alexandre Silveira supostos recebimentos que totalizariam R$ 40 milhões em dois períodos eleitorais, enquanto o ministro nega ter recebido recursos ilegais e contesta a divulgação das alegações. Não há, nas informações citadas, comprovação judicial definitiva dos pagamentos relatados.
Dúvidas sobre o caso Vorcaro e Alexandre Silveira
1. O que é caixa dois eleitoral?
É a utilização de recursos de campanha que não são registrados corretamente na prestação de contas eleitoral. A caracterização de uma irregularidade depende da apuração dos fatos e da análise das provas pelas autoridades competentes.
2. Uma proposta de delação premiada pode ser usada como prova em um processo?
As informações fornecidas em uma colaboração podem contribuir para uma investigação, mas precisam ser avaliadas e corroboradas por outros elementos. A simples apresentação de uma proposta não comprova automaticamente os fatos relatados.
3. Por que mensagens sobre saques podem ser importantes para a investigação?
Elas podem ajudar a esclarecer a origem, a movimentação e o possível destino de recursos. Para demonstrar um repasse específico, entretanto, é necessário analisar o contexto das conversas e sua relação com outros documentos e evidências.
4. Quem decide se uma colaboração premiada será aceita?
A negociação envolve a defesa do colaborador e as autoridades competentes, conforme o procedimento aplicável. A validade e os efeitos do acordo dependem dos requisitos legais e da avaliação judicial quando exigida.
5. O que pode acontecer se as alegações forem confirmadas por provas?
As autoridades poderão avaliar as medidas cabíveis conforme os fatos apurados e a legislação aplicável. Eventuais consequências dependem da comprovação das condutas, da participação de cada pessoa e das decisões tomadas no procedimento.



